Wells e eugenia

Wells e eugenia: imagem meramente ilustrativa de um pássaro multicolorido.
Shiv’s fotografia, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.

O nome de H. G. Wells (1866–1946) costuma, por vezes, ser associado ao tema da eugenia, principalmente com citações de frases dos livros ‘Antecipações’ (1901) e ‘A Ciência da Vida’ (1931), este em coautoria com Julian Huxley.

É sabido que setores da sociedade, intelectuais e políticos proeminentes do início do século XX apoiaram algumas das várias propostas eugenistas, no todo ou em parte. Theodore Roosevelt, 26º presidente dos Estados Unidos, é um dos mais citados. Outro exemplo conhecido é Julian Huxley, irmão mais velho do escritor Aldous Huxley e primeiro diretor-geral da UNESCO.

Alguns deles foram abandonando tais ideias ao longo do tempo, especialmente após os horrores revelados do programa eugenista nazista, embora tenha havido programas eugenistas em vários países. [1]

T. H. Huxley

Aos dezoito anos [2], H. G. Wells foi aluno de Thomas Henry Huxley (1825–1895), influente biólogo inglês, apelidado “buldogue de Darwin” por seu protagonismo na defesa da teoria da evolução de Charles Darwin. Hoje também conhecido por ser o avô do escritor Aldous Huxley.

Apesar de T. H. Huxley ter tido grande influência em sua época e de ter sido um reconhecido anatomista, caíram por terra vários de seus posicionamentos, alguns comuns à época — como a crença na inferioridade intelectual de negros e mulheres —, e proposições, algumas hoje consideradas erros crassos ou racismo científico — como a que Nicolaas Rupke chama de “Regra de Huxley”.

A regra, proposta por T. H. Huxley, defendia que a distância evolutiva entre um homem das supostas raças superiores e um homem das supostas raças inferiores seria maior que a distância entre este último homem e um macaco. [3]

H. G. Wells

O autor de ‘O Homem Invisível’ publicou em 1931 “A Ciência da Vida” (‘The Science of Life’), em coautoria com Julian Huxley [4], e de fato se pronunciou de forma contundente, como muitos intelectuais daquele momento, a favor de ideias eugenistas, em seu livro “Antecipações” (‘Anticipations’), de 1901.

Afirma seu biógrafo Michael Sherborne:

“Nada causou mais dano à reputação de Wells do que o capítulo conclusivo de ‘Antecipações’.” [5]

Mas, teria sido o autor inglês um comprometido eugenista por toda sua vida?

Segundo Sherborne, Wells não sustentou a mesma posição de 1901 por toda sua vida.

“Dentro de dois anos, Wells estaria argumentando contra a eugenia negativa; três anos depois, defendendo os negros contra o preconceito racial; quatro anos depois, advogando a desejabilidade de uma sociedade multirracial.” [6]

Realmente, em 1906, Wells entrevistou Booker T. Washington (1856–1915), educador e líder de comunidade afro-americana, para o capítulo “A Tragédia da Cor”, de seu livro de ensaios ‘The Future in America’ (“O Futuro na América”), que denuncia a injustiça racial nos Estados Unidos.

Wells mudaria seu foco para a melhoria das condições de saúde e a universalização dos direitos humanos.

Para uma descrição detalhada de como Wells foi mudando de opinião, indicamos o artigo “H.G. Wells’s Eugenic Thinking of the 1930s and 1940s”, de John S. Partington [7], em que se mapeia, ao longo de décadas de vida do escritor, como ele foi abandonando, ponto por ponto, com os avanços da ciência, as diversas posições eugenistas.

Partington explica como os avanços da genética colocaram em cheque argumentos eugenistas daquela época. Por exemplo, o maior conhecimento sobre genes recessivos obrigará Wells a escrever refutando a eugenia positiva e contra a eugenia negativa:

“Mesmo em eugenia negativa, não há segurança de que qualidades indesejáveis serão eliminadas totalmente.” [8]

Interessante notar que, aproximadamente em 1930, década da citação anterior, Wells foi diagnosticado com diabetes. Em 1934 tornou-se cofundador da Associação Diabética, juntamente com Robert Daniel Lawrence, médico do King’s College Hospital, também diabético, que havia sido um dos primeiros a receber injeções de insulina na década de 1920.

Os dois fundadores queriam garantir que toda a população, independente de condição financeira, tivesse acesso à insulina. A Associação Diabética hoje tem o nome de Diabetes UK, uma das principais instituições de caridade para pessoas com diabetes no Reino Unido. [9]

Teria a descoberta de sua condição de diabético contribuído para a mudança de sua posição, passando a desmistificar os ideais da eugenia positiva e negativa?

Diferença entre eugenia positiva e eugenia negativa

Para explicar a diferença entre eugenia positiva e eugenia negativa, vejamos uma referência ao Brasil, também no início do século XX.

“A eugenia positiva tinha como objetivos centrais propiciar a seleção eugênica na orientação aos casamentos e estimular a procriação dos casais considerados eugenicamente aptos […] Considerava-se que esses indivíduos eugênicos concentravam-se principalmente nas altas camadas dirigentes e classes superiores de qualquer sociedade […]

“A eugenia negativa visava o segundo aspecto do ideal eugênico, ou seja, diminuir o número dos seres não-eugênicos ou disgênicos e incluía basicamente a limitação ao casamento e procriação […]

“Defendia-se o aborto eugênico, o controle das fontes de degeneração, como o alcoolismo e as doenças venéreas e algumas limitações nas políticas imigratórias do país; discutia-se sobre segregação e esterilização de doentes mentais […]

“Medidas anticoncepcionais e de esterilização, porém, também estavam incluídas na propaganda contra a má procriação em geral, alcançando elementos sociais que compunham as classes mais desfavorecidas e empobrecidas da população, compostas prioritariamente de negros, mulatos e mestiços, os quais eram considerados por muitos eugenistas como elementos inferiores.” [10]

Wells na década de 1940: “Queremos uma variedade de tipos.”

Nos anos de 1940, Wells denunciou a esterilização forçada, prática da eugenia negativa, como uma violação dos direitos humanos, e advogou por melhorias na saúde e educação.

Em 1943, rechaçou o que havia sobrado das noções eugenistas que tinha adotado anteriormente, declarando:

“Não há analogia entre criação humana e os métodos dos criadores de animais. […] Nós temos que aceitar tudo que criamos. Nem queremos um tipo estabelecido, queremos uma variedade de tipos.” [11]

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[1] Ressalvamos que não apoiamos quaisquer programas eugenistas nem quaisquer propostas governamentais, institucionais ou educacionais de “padronização do desejável”.

Para um breve esclarecimento sobre o contexto da época referida quanto a esse tema tão sensível, a título de muito breve introdução, indicamos esta descrição histórica em vídeo de cerca de 20 minutos sobre programas eugenistas apoiados por países do Ocidente: ‘A History of Eugenics’, em: <https://www.youtube.com/watch?v=jeSM9vz6ylg>, do canal do US Holocaust Memorial Museum. Acesso em: 10 de julho de 2025.

Especialmente sobre a tese de humanismo científico e evolucionário de Julian Huxley, indicamos o ótimo artigo: The eugenicist of UNESCO (“O eugenista da UNESCO”). Disponível em: <https://aeon.co/essays/julian-s-huxley-the-man-who-put-eugenics-into-unesco>. Acesso em: 10 de julho de 2025.

[2] Fonte: <https://www.britannica.com/biography/H-G-Wells>. Acesso em: 13 de agosto de 2025.

[3] “it states that, anatomically speaking, the difference between the purportedly highest human race and the supposedly lowest is larger than the difference between the lowest human race and the highest ape.”

“ela enuncia que, anatomicamente falando, a diferença entre a raça humana hipoteticamente mais elevada e a supostamente mais baixa é maior do que a diferença entre a raça humana mais baixa e o macaco mais alto.” [Esta e demais traduções são traduções livres nossas.]

(RUPKE, Nicolaas. The Origins of Scientific Racism and Huxley’s Rule. In: RUPKE, Nicolaas et LAUER, Gerhard, eds. ‘Johann Friedrich Blumenbach: Race and Natural History, 1750-1850’. London, Routledge, 2019, 233-47, 241.)

[4] Segundo John S. Partington, as citações de ‘The Science of Life’ pró-eugenia podem ter sido formuladas por Julian Huxley, como defendem alguns. Porém o que ficou é que Wells coordenou toda a edição e os autores assumiram responsabilidade por tudo.

(PARTINGTON, John S. H.G. Wells’s Eugenic Thinking of the 1930s and 1940s. Utopian Studies, Centre County [Pennsylvania, United States], v. 14, n. 1, p. 74-81, 2003, p. 80, nota 2. Disponível em: <https://www.academia.edu/400343/H_G_Wells_s_Eugenic_Thinking_of_the_1930s_and_1940s>. Acesso em: 11 de julho de 2025.)

[5] “Nothing has done more damage to Wells’s reputation than the concluding chapter of ‘Anticipations’.”

(SHERBORNE, Michael. ‘H.G. Wells: Another Kind of Life’. London, Peter Owen, 2010, p. 148-9.)

[6] “Within two years Wells would be arguing against negative eugenics; within three defending black people against race prejudice; within four advocating the desirability of a multiracial society.” (SHERBORNE, op. cit, p. 152.)

[7] Veja referência completa na nota 4.

[8] “Even in negative eugenics there is no assurance that undesirable qualities are supposed to be eliminated altogether.”

(WELLS, H. G. ‘The Work, Wealth and Happiness of Mankind’. London, Heinemann, 1932, p. 679 ‘apud’ PARTINGTON, J. S., op. cit., p. 76.)

[9] Fonte: <https://www.diabetes.org.uk/about-us/about-the-charity/our-areas-of-work/history>. Acesso em: 13 de agosto de 2025.

[10] MAI, Lilian Denise et ANGERAMI, Emília Luigia Saporiti. Eugenia negativa e positiva: significados e contradições. Revista Latino-Americana de Enfermagem, Ribeirão Preto, v. 14, n. 2, p. 251-8, mar-abr 2006, p. 253-4. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/rlae/a/q5QybhYZjmM3GyF4zVvxC8t/abstract/?lang=pt>. Acesso em 12 ago 2025.

[11] “There is no analogy between human breeding and the methods of animal breeders. […] We have to take everything we beget. Nor do we want a set type, we want a variety of types.” (PARTINGTON, op. cit., p. 79.)

Fonte da imagem:
<https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Orange-bellied_leafbird.jpg>.
Shiv’s fotografia, CC BY 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by/4.0>, via Wikimedia Commons.

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